quarta-feira, 12 de maio de 2010

Quebrada

Quando te perdi, eu caminhei rápida, frenética, desesperada, pelas ruas do centro, da cidade, do mundo, à sua procura, à procura de qualquer sinal da tua presença, do aroma do teu perfume no ar, da sua vibração, qualquer sinal que desmentisse a sua partida. Não encontrei. Não encontrei nada.
Por muito tempo você foi tudo o que eu vi a qualquer lugar que olhasse, por muito tempo você estava em todos os lugares, estava em mim. E então, de uma hora para a outra, você não estava ali. Você não estava em lugar nenhum. Você não estava mais em mim, e eu estava vazia, uma carcaça vazia e sem utilidade. Me faltava uma parte. Eu estava quebrada, defeituosa. por estar sem aquele pedaço, por estar sem você, eu estava sem mim.
E hoje, agora que finalmente eu me tenho de volta - ainda que nunca completa -, eu nunca mais saí as ruas caminhando rápida, frenética e desesperada à procura de ninguém além de mim mesma. Ninguém além de você.

A Última Noite de Inverno - Parte 5. (Final)

Levantei-me quando o relógio badalou meia noite e o último dia de inverno estava oficialmente começando. Estava na hora de fazer o que eu tinha que fazer.


Caminhei lentamente até o interior da casa e entrei em um dos quartos. O antigo quarto de papai e de certa forma meu, já que nas noites muito frias de inverno dormíamos naquela enorme cama de casal abraçados tentando nos aquecer.


Abri o maleiro do guarda roupa e para chegar até ele tive de subir em uma escrivaninha ao lado da cama, se não, não alcançava. Era impressionante como tudo estava no seu devido lugar, como ninguém tinha entrado ali nem para roubar nada. Com um pouco de esforço consegui pegar a caixa aveludada, desci do móvel cambaleando muito, de uma forma desajeitada e engraçada, por pouco não caí.


Fui em direção ao banheiro que ficava no corredor e puis a banheira para encher, deixando na água fria mesmo. Saí de lá e me sentei novamente na poltrona, depositei a caixa aveludada no colo sorrindo de canto. Passei a mão pela tampa delicadamente e a abri fazendo com que o brilho da lua nova iluminasse o objeto de metal.


O peguei cuidadosamente para não me cortar, era uma adaga belíssima, ou sai como muitos preferem chamá-la. Era totalmente de aço inox - aqueles que se usam em cirurgias e que não enferrujam - a lâmina não era comprida, porém um pouco larga e muito afiada. O punho era recoberto de pedras, rubis e jades além de ametistas. Aquilo valia ouro, mas meu pai nunca o venderia e eu também.


Coloquei-a novamente na caixa e deixei a tampa aberta. Levantei da poltrona e comecei a me despir até o ponto em que fiquei apenas com o leve tecido da calcinha e que meus dentes batiam fortemente, andei de volta ao acento pegando meu precioso brinquedo.

Com o objeto em mãos e praticamente nua me dirigi a porta para abri-la, foi o que fiz. Quando o vento frio bateu em meus cabelos negros me arrepiei por completo e os dentes começaram a bater com fúria. Dei um passo. Depois outro. Andei até estar pisando na neve e respirando com dificuldade, parecia que eu estava respirando o ar em seu estado sólido de tão pesado.


Levantei a adaga e o brilho da lua cintilou em uma de suas extremidades, sorri. Virei o pulso para cima e em um movimento rápido puxei o objeto metálico ao seu encontro, fazendo um corte profundo. Mordi o lábio inferior para abafar um grito de dor.


O sangue começou a escorrer e cair na neve, manchando-a de um vermelho escuro quase preto. Deixei com que pingasse e fui entrando lentamente em casa, deixando uma trilha de sangue por onde quer que passasse, ao longe ouvi os lobos uivarem, era exatamente o que eu queria.


Meu rosto se contorcia com dor, porém meus olhos brilhavam. Um brilho doentio e enigmático. Comecei a andar em direção à banheira.


Cheguei ao local meio que cambaleando devido à perda de sangue. Aproximei-me da banheira e comecei a entrar nela. Encolhi o corpo ao sentir a água extremamente gelada. Deitei lentamente na mesma com o pulso ensangüentado para fora, estava sorrindo. Fiquei em silêncio até que minha vista começou a ficar pesada; o sofrido e doloroso latejar do pulso cortado eu quase não sentia mais, e por causa disso eu já sabia que estava morrendo.


Na ultima força que tive consegui abrir os olhos pela ultima vez e vi ali me olhando da porta uma matilha inteira de lobos, com seus olhos demoníacos e seus dentes a mostra, o que pude demonstrar fora um sorriso de canto e depois tudo escureceu.
--


- Papai, porque o senhor gosta tanto do inverno? - Perguntou uma garotinha no colo do pai, o olhando carinhosamente.


O homem por sua vez a olhou sorrindo e se pôs a explicar:


- Sabe o porquê minha querida? - ela afirmou negativamente com a cabeça - Por que tudo que começa no inverno termina nele mesmo, mesmo que seja no inverno do outro ano, a magia está em onde quer que você olhe, a misticidade desta estação é deslumbrante.


- Não entendi. - A pequenina o cortou, totalmente confusa.


Ele sorriu e a tirou do colo, olhou-a nos olhos afagando seus cabelos em um cafuné nada sutil, ela bufou.


- Você é muito nova para entender essas coisas, quem sabe quando crescer. - Ele sorriu e indicou o jogo no tapete felpudo. - Agora vamos terminar o nosso jogo, está bem?


A menina correu para o tapete esquecendo todo aquele assunto de magia e da estação fria, voltou a brincar, como toda criança deve fazer em uma noite fria de inverno



Fim

A Última Noite de Inverno - Parte 4.

Por ter vivido boa parte da minha vida dentro de uma redoma de vidro, sempre fui muito ingênua para as malicias do mundo, para as malicias dos homens...

Carlos, um dos meus antigos colegas de classe ficava me olhando de uma maneira estranha onde quer que nos encontrássemos. Ele já não falava mais comigo, porém mesmo assim me olhava daquele jeito que me deixava constrangida, com um sorriso indecifrável nos lábios.

Rafael não gostava dele, isso era visível em seu semblante, além de que sempre estavam brigando. Eu defendia Carlos dizendo a ele que estava exagerando. A única coisa que ele fazia era me pegar pelos ombros, sacudindo-me levemente dizendo, quase aos berros, que as intenções do rapaz comigo não eram boas e que ele apenas queria me defender. Mesmo com 17 anos eu não sabia nada sobre essas segundas intenções da parte do Carlos.
Duas semanas depois enquanto eu voltava para casa, (desta vez sozinha já que o Rafael teve de ficar na escola um pouco mais) Carlos apareceu com mais quatro amigos e veio com uma conversa estranha para cima de mim; eu estranhei e tentei correr para casa, mas eles me seguraram e começaram a me agarrar. Comecei a gritar imediatamente, todavia eles não paravam. Para solucionar o problema eles taparam a minha boca e me arrastaram para um beco sujo e escuro, me prensando em uma parede molhada e viscosa, fedendo a infiltração.

Quando eles já terminavam de tirar a minha blusa Rafael apareceu, só que ele estava sozinho, portanto em desvantagem. Eles começaram a brigar e meu amigo apanhava, mas eu não queria que isso acontecesse só que mesmo assim não conseguia fazer nada.

Sentada e estática observava a tudo aquilo chorando em silêncio. Quando o susto já tinha, de certa forma sumido, eu resolvi agir.

Posicionei a minha mão como apoio para me levantar e acabei me cortando com algo pontiagudo, ao invés de exclamar com dor, sorri. Virei o rosto e me deparei com uma afiada lâmina de vidro, meu sorriso se alargou e instantaneamente a agarrei com força como se ela fosse fugir sem me importar se o sangue já caía das minhas mãos e escorria em direção ao antebraço.


Levantei-me em um pulo, andando com cautela para não me notarem e quando já estava perto o suficiente me atirei sobre Carlos, cravando-lhe a lâmina do peito, empurrando-a até ver a ponta do outro lado do corpo do maldito. Os amigos fugiram como gatos acuados, com o rabo entre as pernas, enquanto Carlos uivava de dor. Após alguns segundos, que para mim pareceram eternidade, eu puxei a lâmina novamente. Algo que se antes era espelhado agora era carmesim.


O desgraçado caiu no chão com um baque surdo, olhos sem brilho e a boca entreaberta, ou seja, morto. Porém não tive tempo para observar aquela cena que me iluminava os olhos, pois estava ocupada demais em correr Rafael, só que era tarde demais. O mesmo se encontrava caído no chão com o corpo todo ensangüentado e gemendo baixinho.

Eu mais do que depressa fui ao seu encontro e abracei o corpo quase inerte de modo desajeitado, pousando sua cabeça em meu colo enquanto sussurrava ao seu pé do ouvido que estava tudo bem. Ele me olhou com os olhos trêmulos que já começavam a perder o brilho e tentou sorrir-me de um modo acalentador, o que não fora algo muito bem sucedido. Começou a falar com dificuldade, a voz rouca e trêmula, três palavras que fizeram meu coração tremer, essas foram: “Eu te amo”. Incrédula o fitei nos olhos e ele apenas se deu ao trabalho de sorrir levantando o braço com o intuito de me acariciar o rosto de leve, ao sentir o toque fechei os olhos. Senti que o mesmo queria falar algo mais e o olhei novamente, as forças lhe faltaram e seu corpo faleceu, fazendo com que o braço que estava levantado caísse no chão pesadamente. Naquela hora, o céu chorou sobre nós.

Mais uma vez fiquei ali chorando sobre outro corpo morto, desta vez os pingos da chuva me acariciava a pele de um modo que eu achei que fosse até para tentar me confortar. A polícia não tardou, porém mesmo com os poucos minutos sucumbi ao desespero, beijando a face falecia de forma ávida, querendo talvez transferir um pouco de vida de um corpo para o outro.

Os dias que se passaram depois daquele acontecimento não foram dos melhores devido ao fato de ter tido os processos, enterros e etc.. Foram dias duros para mim e tudo àquilo só fez com que a minha situação piorasse, fazendo com que tivesse pesadelos ainda piores à noite. Pesadelos cheios de sangue e rostos de angustia, àquilo me fazia bem, eu ria dentro de meus sonhos e era eu quem fazia tamanhos estragos.

Várias vezes tentei cortar os pulsos apenas para ter o prazer de ver sangue jorrar. Consegui fazer com que vários psicólogos saíssem do ramo apenas com meus comentários, e alguns chegaram até mesmo a me recomendarem psiquiatras.

Depois de alguns meses o processo teve fim e eu fui livrada de qualquer e total culpa que pudesse me acusar, tinha matado uma pessoa naquele dia sim, porém em legitima defesa. Os amigos de Carlos foram presos e eu senti que um peso tinha sido retirado das minhas costas.

A Última Noite de Inverno - Parte 3.

"Die... die... die"

- A morte é traiçoeira não é papai? – ri rodando o vinho no copo. - A gente nunca sabe quando ela resolve nos pegar, mas dessa vez quem vai pegar alguma coisa sou eu, sabia? É a sua menininha agora é uma mulher esperta e eu vou provar...Soltei a taça no tapete, manchando-o com o vinho e rachando o objeto do mais puro cristal, ri. Olhei para a cor avermelhada e comecei a me recordar do dia da morte do papai.


Era de madrugada e o ultimo dia de inverno, o gelo começava a derreter. Na noite anterior comemorei o dia do meu aniversário junto com meu pai nas montanhas, apenas nós dois. Voltávamos devagar, devido à pista molhada e conversávamos animadamente, porém ele acabou se distraindo justo no momento em que um animal cruzava a pista, eu gritei tentando avisá-lo, só que já era tarde demais.


O carro capotou várias vezes, descendo em uma ribanceira. Eu estava usando o cinto de segurança e no banco de trás, por isso escapei quase que ilesa da situação. Mas, o vidro do carro se partiu com os choques que ele teve no chão, e meu pai que estava no banco da frente acabou por se machucar seriamente. Algumas lâminas fincaram no seu corpo, abrindo suas entranhas e permitindo que o sangue jorrasse sem dó nem piedade. Fiquei por várias horas chorando sobre seu corpo inerte, sem me preocupar se minha roupa estava se sujando de sangue, ou não.


Quando a ambulância chegou eles tentaram nos separar, o corpo já não tinha vida, mas mesmo assim eles nos separaram, eu gritei, chorei e me esperneei só que eles não permitiam que eu ficasse com o homem que mais amava, ao invés disso eles pegaram uma seringa e espetaram no meu braço, eu senti uma picada, e depois, mais nada. Acordei no outro dia em uma cama de hospital gritando, eu queria você papai, porém você não aparecia, você não estava mais conosco, tinha ido embora.


Enquanto eu chorava um dos médicos entrou no quarto junto a uma mulher escancarando a porta com violência. O homem demonstrava preocupação e tentava me acalmar, mas a mulher não, ela ficou o tempo inteiro encostada no batente da porta olhando-me com desdém.


De imediato não a reconheci, mas depois eu me lembrei que era uma parente distante, uma tia que nunca mostrou interesse por mim ou por papai. Quando descobri que ela que iria cuidar de mim, percebi na hora que minha vida nunca mais seria a mesma.


Todas as noites eu tinha pesadelos estanhos, sonhava com mortes e por incrível que pareça eu ria disto. Minha tia me chamava de louca e os psiquiatras sempre diziam a mesma coisa: eu não tinha superado a morte de meu pai, e isso provavelmente nunca iria acontecer.

Eu tomava remédios controlados, tarja preta mesmo. Os poucos amigos que eu tinha se afastaram de mim fazendo com que os anos passassem em uma lentidão e com um sofrimento que nenhum ser seria capaz de suportar, além de mim. Algumas vezes eu tive crises, tentei matar minha tia com qualquer objeto que aparecesse na minha frente. Ela, por sua vez, tentou me internar em um manicômio gritando e alegando que eu estava doente, que ela não merecia carregar um fardo tão pesado quanto eu.

Os médicos apenas aumentavam as dosagens de meus remédios.

A Última Noite de Inverno - Parte 2.

- Inverno... – Balancei a cabeça sorrindo e indo em direção à janela, esfregando as mãos que mesmo com luvas teimavam em continuar geladas.

Continuei olhando a foto ternamente enquanto me recordava de cada fato ocorrido naquele dia. Era meu aniversário de oito anos e eu havia implorado a papai para que o fizéssemos no chalé nas montanhas dele, um lugar lindo e aconchegante, principalmente no inverno, a época em que estávamos e a que eu mais gostava. As árvores ficavam sem folhas, tirando alguns pinheiros; toda a área era cercada por montanhas que se encadeavam e que ficavam com o topo branco devido à neve. Aquela vista deslumbrava qualquer um, e mais ainda se o céu estivesse avermelhado, fosse na aurora ou no crepúsculo, ambos tingiam a neve branca perfeitamente. Vendo aquela cena a única coisa que conseguíamos sentir era... amor.

Ri com meu pensamento, amor?! Ora que bobagem, nem sei o que isso significa. Àquela garotinha de oito anos já não existe mais, talvez existisse se aquelas coisas não tivessem acontecido, mas aconteceu. Eu não devia me referir a ela como a mim, como se fôssemos uma única pessoa, aquela garotinha é outra pessoa, é apenas lembranças de um passado longínquo que nunca mais tornaria a ver, a ter, a viver.

Afastei-me da janela e mergulhei na penumbra azulada do chalé, ouvindo ao longe os lobos uivando para a lua cheia.

Aproximei-me da lareira com o intuito de me aquecer, porém o fogo estava quase extinto e o calor que saia de lá era a mesma coisa que nada. Suspirei pesadamente sentando na posição de lótus perante a lareira e me curvei para pegar mais lenha. Coloquei a madeira no fogo e remexi com um espeto de ferro, melhorou, mas nem tanto.

Varri o lugar com o olhar e me levantei para pousar o porta-retrato na mesinha da sala, não podendo deixar de notar que tudo estava muito sujo, mas isso não fazia diferença, pois não iria ficar por muito tempo ali. Bufei. Pelo menos me dei ao trabalho de retirar as teias de aranhas, parecia que eu estava num sarcófago e que ninguém entrava lá há anos. Mas era exatamente isso, ninguém entrava naquela casa a pelo menos vinte anos. Passei a mão no móvel e não consegui conter um espirro. Aquela poeira toda estava irritando meu nariz.

- Que seja...

Peguei uma taça de vinho tinto entre os dedos trêmulos e sentei-me preguiçosamente no tapete felpudo, perto do fogo que agora estava bem melhor, bebia aquela bebida com delicadeza e classe assim como eu pai fazia.

Sorri de canto, um misto de malicia e ingenuidade, lembrando-me de como ele tomava seus vinhos, com os olhos vidrados no fogo da lareira como se estivesse pensando em algo que lhe roubava toda a atenção enquanto eu ficava com uma xícara de chá fumegante nas mãos, sempre indagando o porquê de ainda não poder tomar o liquido avermelhado. Ele sorria e dizia que tudo tinha seu tempo. No outro dia ele morreu.

A Última Noite de Inverno - Parte 1.

Estava precisando me isolar por um tempo desde que aquele maldito inferno havia começado e isso já não era mais segredo a ninguém, pelo contrário, tava mais do que evidente minha frustração e revolta. Apesar de ter vivido praticamente a minha vida inteira cercada de pessoas eu sempre estive sozinha. Era como se eu fosse uma ilusão ótica, eu podia gritar, chorar, destruir o que tivesse ao meu redor e nem se dariam ao trabalho de dirigir-me o olhar ou até mesmo movimentar um milímetro do corpo para saber o que acontecia no local. Era como se para eles eu não existisse e talvez, quem sabe, também acontecesse comigo em relação à àqueles seres.

- Imbecis! – me soltei na poltrona empoeirada rindo compulsivamente como se aquilo fosse a piada mais engraçada que já tivesse escutado em toda a minha vida. – Vocês são todos um bando de imbecis, seus mesquinhos inúteis! – gritei novamente em plenos pulmões, já com lágrimas nos olhos, o pescoço arquejado para trás e as mãos na barriga. A própria que já dava sinais de que aquela crise de risos já estava indo longe demais.

Aos poucos fui me acalmando e isso ocorreu devido ao fato de ter me lembrado de uma pessoa diferente de todas as outras, meu pai. Ele era diferente em todos os ângulos, porque enquanto as pessoas eram inescrupulosas, egoístas e estavam sempre procurando pelo dinheiro ele estava lá comigo, me levando a passeios e me fazendo rir, era um homem integro e bondoso, além de que talvez tenha sido a única pessoa que realmente se importou comigo, que me protegeu de tudo e de todos.
O único problema é o fato de que ele não está mais aqui e que desde então começou este inferno que infelizmente chamo de vida. Mas eu vou voltar a ficar junto dele.
- Ahh papai... Você não é que nem os outros, não é? – sorri de uma maneira quase que doentia pegando delicadamente um porta-retrato na mesinha ao lado da poltrona. Na foto havia duas pessoas, estes eram uma menininha e um homem adulto a abraçando.

A garotinha trajava um delicado vestido de renda, um cachecol envolto no pescoço e nas pernas rechonchudas uma meia calça. O pequeno casaco de lã era o leito para a delicada trança de lado, fazendo com que as madeixas negras realçassem ainda mais os olhos amendoados que a jovem possuía. O homem, magro e esguio, era de certa forma bonito. Os cabelos negros estavam bagunçados e lhe davam um ar de juventude que infelizmente o tempo retirou. Por estar abraçado a criança seu corpo pendia para frente fazendo com que o sobre - tudo negro o tampasse quase que por completo, deixando à mostra apenas uma parte onde se via uma calça social escura. Seu sorriso era terno e os seus olhos transbordavam bondade. Atrás deles se via um enorme chalé de madeira, uma construção antiga e bela, tinha o telhado totalmente tingido de branco, era neve.
Suspirei desviando o olhar, me lembrava daquele dia como se fosse ontem, era meu aniversário e a penúltima noite de inverno, eu era aquela menininha.

Fada dos Sonhos

Existem fadas madrinhas, fadas do dente, porque não uma fada dos sonhos?!

Elas estariam sempre ali - quando a realidade estivesse nos sufocando, quando a justiça e a crueldade das pessoas nos maltratando, quando achassemos que tudo está perdido -, para nos acalentar com seu doce e inebriante mundo de sonhos.

Este seria um mundo muito melhor, onde os visinhos sorririam para você quando passasse, onde o céu é sempre límpido e as nuvens feitas de algodão doce; um mundo onde não existiria maldade, que as crianças poderiam brincar livres nos parques sob o olhar vigilânte e atenciosos de seus pais; um mundo onde os animais correriam livres e sem ameaças, onde ninguém engordasse. Um mundo onde você fosse feliz ao ponto de poder voar de tão leve que estaria sua alma.

Que a fada dos sonhos atenda todos os nossos desejos e que mesmo que por apenas um momento, nos conceba a alegria eterna.

do ódio ao rancor.

 do ódio ao rancor.


 Com o tremor do seu peito, sentia que as mãos estavam a se fechar. Relaxou, respirou e chorou. Tentando deixar escapar da mente todo o horror que lhe passava. Tentando não fazer o que desejava que, ao certo, o faria arrepender-se depois.

o amor, áh o amor.

minhas pernas estão bambas, acho que estou voando. Minhas mãos tremendo, minha barriga formigando. Olhei pro lado, pro outro, nada vi; Qual seria o motivo pra todo esse alarme. Perdi o ar quando percebi: você vindo por ali quebrando a esquina, olhando pra mim como só você faz, andando do seu jeito estranho, com suas roupas estranhas, me fazendo sentir de uma maneira estranha a melhor coisa que já senti.

meus medos.

Fechei a porta, as janelas. Engoli em seco. Me cobri, me escondi embaixo do cobertor achando que assim me salvaria, mas do quê? O que estava a me esperar do lado de fora? Ao certo, o medo do MEU desconhecido.

individualismo?

Se eu pudesse seria a minha própria estilista; desenharia as minhas próprias roupas, calças, blusas e afins. Teria alguém só pra costurar pra mim. Me faria.
Se eu soubesse combinar as core, decoraria a minha casa, eu desenharia o meu sofá, o meu guarda-roupa, a minha cama. Minha casa seria o espelho das minhas ideias.
Se eu fizesse um curso de mecânica consertaria meu próprio carro, ou talvez montaria o meu mesmo.
Se eu fosse eletricista faria as redes da minha casa, eu mesma.
Se eu fosse cobradora ou motorista de ônibus eu não cobraria a minha passagem. Se eu exercesse todas as funções existentes e se todos fossem da mesma maneira, não existiria porquê de ninguém precisar de ninguém. Mas, todos nós sabemos que isso NÃO EXISTE, então… POR QUÊ CARA, POR QUÊ? Por quê as pessoas ainda insistem em crer que podem realizar todas as suas tarefas sem que precisem de ninguém?; por quê esse individualismo quando todos precisamos de alguém, de um ombro, de uma vida pra que sejamos completos e sãos.

Dia Ruim

  Todo mundo tem um dia em que se acha menos importante para todos. As pessoas ao seu redor passam e não te enxergam.
Logo hoje?
Você se arrumou, maquiou, perfumou, se ajeitou. Demorou séculos no banho, pra quando saísse, através da fumaça de um sabonete incrivelmente contagiante, todos te olhassem, elogiassem, te percebessem.
Mas hoje tudo saiu dos eixos, suas piadas não foram engraçadas, pelo contrário, foram mal entendidas; seu jeito foi considerado espalhafatoso; seu sorriso estava sem energia, sem amor, sem alegria.
Mas porquê? Porque você mesma estava vazia, estava extremamente oca; e isso era transmitido sem que percebesse. Você até que tentou esconder, por trás da maquilagem, das roupas bonitas, do salto 15cm, mas não deu. O seu ‘mau dia’ transpareceu, se fez presente em todos os seus atos; e quando seu sorriso não é verdadeiro, os à receber também o farão.

Como dizia o velho ditado: “Se com ferro fere, com ferro será ferido”.

Vida de isopor

Sentada na calçada, olhando a rua, imaginava a vida de quem por ela passava; imaginava a casa, o trabalho, a família; imaginava quem essa pessoa amava, por quem suspirava; se tinha a cabeça cheia de problemas ou leve demais, capaz de voar.
Ficava imaginando, buscando um abrigo na vida que não era dela; criava estórias de vidas exemplares, de pessoas diplomatas; criava, “porque sua vida real é trágica”.
Dessa maneira tentava fugir, recriava pessoas e numa miniatura punha tudo no lugar desejado; criava roteiros, falas, cenários; um refúgio pra quem não encontra seu próprio sorriso.
Assim, podia ser feliz ao menos nos seus planos. Ao menos, em sua casa cor-de-rosa, com telhas coloniais; garagem de porta automática (com controle e afins), jardim repleto de margaridas, carrinho de bebê às 07:00h da manhã apanhando sol com o pai da criança ao lado; Vivendo numa vida artificial, mas que era somente dela, dos sonhos dela, da maquete dela; afinal, ela que repunha o isopor sempre que desfazia-se um pedaço, que sentia-se feliz quando a mulher de avental vermelho, preparando a torta, a reprensentava.

Mascara

Ao abaixar a cabeça uma lágrima rolou, filha única da decepção. Uma lágrima apenas foi capaz de demonstrar todo o seu rancor, “aquela menina nunca chorou…” muitos por ali já diziam, mas não sabiam, não sabiam de nada da vida, nem da dela, nem da deles; ocupavam-se mais a ver seu sorriso, não tentavam desvendar o porque deles aparecerem tão frequentemente, pois eu lhe digo: máscara, uma simples e doce máscara; empenhava-se em não perturbar a ninguém com suas tristezas, com seus rancores e mágoas, assim ela decidiu.
“Mas ninguém é de ferro”, ela tentava pôr em sua cabeça esse velho dito, mas não adiantava, o sorriso maléfico era o que aparecia, como convite de entrada a uma casa feliz. “MENTIRA, casas felizes não existem”, só nisso ela acreditava.
Após a primeira e única lágrima, naquele rosto sem alguma ruga aparente, não mais ouveram sorrisos; ela também não empenhava-se em chorar. Ela só vivia,curta e grossa, seca, apenas existia. Cansada de todas as decepções e tentativas de uma vida com risos sinceros, ombros à oferta-lhe conforto, em vão; buscava, mas não encontrava nada, ninguém, nem a ela mesma.
Ao olhar-se no espelho imaginava, “meu futuro, eu sou meu futuro, meu amigo”. O futuro dela não existia, não um diferente, mas o mesmo de sempre: RANCOR, MÁGOA, TRISTEZA.
E ela seguia, sem se abrir, sem querer demonstrar-se quem realmente é, seguia sem que ninguém soubesse ao certo quem ela era, por isso sozinha, sempre sozinha e mascarada.
17_01_mascaras

Romeu e Julieta

Quando a vida lhe oferece um sonho muito além de todas as suas expectativas, é irracional se lamentar quando isso chega ao fim.

blasfêmia

Eu estou aqui, e eu te amo. Eu sempre amei você, e eu sempre vou amar. Eu estava pensando em você, vendo o seu rosto em minha mente, durante cada segundo em que estive longe. Quando eu te disse que não te queria, aquele foi o tipo mais negro de blasfêmia". - Edward

Ninguém ia se render

esta noite. Ele expirou e o som era praticamente um grunido. Toquei seu rosto. - Olhe - eu disse.- eu o amo mais do qualquer coisa no mundo. Isso não basta ? - Sim, basta . - respondeu ele sorrindo. - Basta para sempre.

Como se tivesse oco

Só fazem parte da mentira, meu amor. Não existem distrações para a agonia. Meu coração não batia havia quase noventa anos, mas isso era diferente. Era como se meu coração não estivesse ali... Como se eu estivese oco. Como se eu tivesse deixado com você tudo o que havia aqui dentro.