quarta-feira, 12 de maio de 2010

A Última Noite de Inverno - Parte 5. (Final)

Levantei-me quando o relógio badalou meia noite e o último dia de inverno estava oficialmente começando. Estava na hora de fazer o que eu tinha que fazer.


Caminhei lentamente até o interior da casa e entrei em um dos quartos. O antigo quarto de papai e de certa forma meu, já que nas noites muito frias de inverno dormíamos naquela enorme cama de casal abraçados tentando nos aquecer.


Abri o maleiro do guarda roupa e para chegar até ele tive de subir em uma escrivaninha ao lado da cama, se não, não alcançava. Era impressionante como tudo estava no seu devido lugar, como ninguém tinha entrado ali nem para roubar nada. Com um pouco de esforço consegui pegar a caixa aveludada, desci do móvel cambaleando muito, de uma forma desajeitada e engraçada, por pouco não caí.


Fui em direção ao banheiro que ficava no corredor e puis a banheira para encher, deixando na água fria mesmo. Saí de lá e me sentei novamente na poltrona, depositei a caixa aveludada no colo sorrindo de canto. Passei a mão pela tampa delicadamente e a abri fazendo com que o brilho da lua nova iluminasse o objeto de metal.


O peguei cuidadosamente para não me cortar, era uma adaga belíssima, ou sai como muitos preferem chamá-la. Era totalmente de aço inox - aqueles que se usam em cirurgias e que não enferrujam - a lâmina não era comprida, porém um pouco larga e muito afiada. O punho era recoberto de pedras, rubis e jades além de ametistas. Aquilo valia ouro, mas meu pai nunca o venderia e eu também.


Coloquei-a novamente na caixa e deixei a tampa aberta. Levantei da poltrona e comecei a me despir até o ponto em que fiquei apenas com o leve tecido da calcinha e que meus dentes batiam fortemente, andei de volta ao acento pegando meu precioso brinquedo.

Com o objeto em mãos e praticamente nua me dirigi a porta para abri-la, foi o que fiz. Quando o vento frio bateu em meus cabelos negros me arrepiei por completo e os dentes começaram a bater com fúria. Dei um passo. Depois outro. Andei até estar pisando na neve e respirando com dificuldade, parecia que eu estava respirando o ar em seu estado sólido de tão pesado.


Levantei a adaga e o brilho da lua cintilou em uma de suas extremidades, sorri. Virei o pulso para cima e em um movimento rápido puxei o objeto metálico ao seu encontro, fazendo um corte profundo. Mordi o lábio inferior para abafar um grito de dor.


O sangue começou a escorrer e cair na neve, manchando-a de um vermelho escuro quase preto. Deixei com que pingasse e fui entrando lentamente em casa, deixando uma trilha de sangue por onde quer que passasse, ao longe ouvi os lobos uivarem, era exatamente o que eu queria.


Meu rosto se contorcia com dor, porém meus olhos brilhavam. Um brilho doentio e enigmático. Comecei a andar em direção à banheira.


Cheguei ao local meio que cambaleando devido à perda de sangue. Aproximei-me da banheira e comecei a entrar nela. Encolhi o corpo ao sentir a água extremamente gelada. Deitei lentamente na mesma com o pulso ensangüentado para fora, estava sorrindo. Fiquei em silêncio até que minha vista começou a ficar pesada; o sofrido e doloroso latejar do pulso cortado eu quase não sentia mais, e por causa disso eu já sabia que estava morrendo.


Na ultima força que tive consegui abrir os olhos pela ultima vez e vi ali me olhando da porta uma matilha inteira de lobos, com seus olhos demoníacos e seus dentes a mostra, o que pude demonstrar fora um sorriso de canto e depois tudo escureceu.
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- Papai, porque o senhor gosta tanto do inverno? - Perguntou uma garotinha no colo do pai, o olhando carinhosamente.


O homem por sua vez a olhou sorrindo e se pôs a explicar:


- Sabe o porquê minha querida? - ela afirmou negativamente com a cabeça - Por que tudo que começa no inverno termina nele mesmo, mesmo que seja no inverno do outro ano, a magia está em onde quer que você olhe, a misticidade desta estação é deslumbrante.


- Não entendi. - A pequenina o cortou, totalmente confusa.


Ele sorriu e a tirou do colo, olhou-a nos olhos afagando seus cabelos em um cafuné nada sutil, ela bufou.


- Você é muito nova para entender essas coisas, quem sabe quando crescer. - Ele sorriu e indicou o jogo no tapete felpudo. - Agora vamos terminar o nosso jogo, está bem?


A menina correu para o tapete esquecendo todo aquele assunto de magia e da estação fria, voltou a brincar, como toda criança deve fazer em uma noite fria de inverno



Fim

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