- Inverno... – Balancei a cabeça sorrindo e indo em direção à janela, esfregando as mãos que mesmo com luvas teimavam em continuar geladas.
Continuei olhando a foto ternamente enquanto me recordava de cada fato ocorrido naquele dia. Era meu aniversário de oito anos e eu havia implorado a papai para que o fizéssemos no chalé nas montanhas dele, um lugar lindo e aconchegante, principalmente no inverno, a época em que estávamos e a que eu mais gostava. As árvores ficavam sem folhas, tirando alguns pinheiros; toda a área era cercada por montanhas que se encadeavam e que ficavam com o topo branco devido à neve. Aquela vista deslumbrava qualquer um, e mais ainda se o céu estivesse avermelhado, fosse na aurora ou no crepúsculo, ambos tingiam a neve branca perfeitamente. Vendo aquela cena a única coisa que conseguíamos sentir era... amor.
Ri com meu pensamento, amor?! Ora que bobagem, nem sei o que isso significa. Àquela garotinha de oito anos já não existe mais, talvez existisse se aquelas coisas não tivessem acontecido, mas aconteceu. Eu não devia me referir a ela como a mim, como se fôssemos uma única pessoa, aquela garotinha é outra pessoa, é apenas lembranças de um passado longínquo que nunca mais tornaria a ver, a ter, a viver.
Afastei-me da janela e mergulhei na penumbra azulada do chalé, ouvindo ao longe os lobos uivando para a lua cheia.
Aproximei-me da lareira com o intuito de me aquecer, porém o fogo estava quase extinto e o calor que saia de lá era a mesma coisa que nada. Suspirei pesadamente sentando na posição de lótus perante a lareira e me curvei para pegar mais lenha. Coloquei a madeira no fogo e remexi com um espeto de ferro, melhorou, mas nem tanto.
Varri o lugar com o olhar e me levantei para pousar o porta-retrato na mesinha da sala, não podendo deixar de notar que tudo estava muito sujo, mas isso não fazia diferença, pois não iria ficar por muito tempo ali. Bufei. Pelo menos me dei ao trabalho de retirar as teias de aranhas, parecia que eu estava num sarcófago e que ninguém entrava lá há anos. Mas era exatamente isso, ninguém entrava naquela casa a pelo menos vinte anos. Passei a mão no móvel e não consegui conter um espirro. Aquela poeira toda estava irritando meu nariz.
- Que seja...
Peguei uma taça de vinho tinto entre os dedos trêmulos e sentei-me preguiçosamente no tapete felpudo, perto do fogo que agora estava bem melhor, bebia aquela bebida com delicadeza e classe assim como eu pai fazia.
Sorri de canto, um misto de malicia e ingenuidade, lembrando-me de como ele tomava seus vinhos, com os olhos vidrados no fogo da lareira como se estivesse pensando em algo que lhe roubava toda a atenção enquanto eu ficava com uma xícara de chá fumegante nas mãos, sempre indagando o porquê de ainda não poder tomar o liquido avermelhado. Ele sorria e dizia que tudo tinha seu tempo. No outro dia ele morreu.


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