Estava precisando me isolar por um tempo desde que aquele maldito inferno havia começado e isso já não era mais segredo a ninguém, pelo contrário, tava mais do que evidente minha frustração e revolta. Apesar de ter vivido praticamente a minha vida inteira cercada de pessoas eu sempre estive sozinha. Era como se eu fosse uma ilusão ótica, eu podia gritar, chorar, destruir o que tivesse ao meu redor e nem se dariam ao trabalho de dirigir-me o olhar ou até mesmo movimentar um milímetro do corpo para saber o que acontecia no local. Era como se para eles eu não existisse e talvez, quem sabe, também acontecesse comigo em relação à àqueles seres.
- Imbecis! – me soltei na poltrona empoeirada rindo compulsivamente como se aquilo fosse a piada mais engraçada que já tivesse escutado em toda a minha vida. – Vocês são todos um bando de imbecis, seus mesquinhos inúteis! – gritei novamente em plenos pulmões, já com lágrimas nos olhos, o pescoço arquejado para trás e as mãos na barriga. A própria que já dava sinais de que aquela crise de risos já estava indo longe demais.
Aos poucos fui me acalmando e isso ocorreu devido ao fato de ter me lembrado de uma pessoa diferente de todas as outras, meu pai. Ele era diferente em todos os ângulos, porque enquanto as pessoas eram inescrupulosas, egoístas e estavam sempre procurando pelo dinheiro ele estava lá comigo, me levando a passeios e me fazendo rir, era um homem integro e bondoso, além de que talvez tenha sido a única pessoa que realmente se importou comigo, que me protegeu de tudo e de todos.
O único problema é o fato de que ele não está mais aqui e que desde então começou este inferno que infelizmente chamo de vida. Mas eu vou voltar a ficar junto dele.- Ahh papai... Você não é que nem os outros, não é? – sorri de uma maneira quase que doentia pegando delicadamente um porta-retrato na mesinha ao lado da poltrona. Na foto havia duas pessoas, estes eram uma menininha e um homem adulto a abraçando.
A garotinha trajava um delicado vestido de renda, um cachecol envolto no pescoço e nas pernas rechonchudas uma meia calça. O pequeno casaco de lã era o leito para a delicada trança de lado, fazendo com que as madeixas negras realçassem ainda mais os olhos amendoados que a jovem possuía. O homem, magro e esguio, era de certa forma bonito. Os cabelos negros estavam bagunçados e lhe davam um ar de juventude que infelizmente o tempo retirou. Por estar abraçado a criança seu corpo pendia para frente fazendo com que o sobre - tudo negro o tampasse quase que por completo, deixando à mostra apenas uma parte onde se via uma calça social escura. Seu sorriso era terno e os seus olhos transbordavam bondade. Atrás deles se via um enorme chalé de madeira, uma construção antiga e bela, tinha o telhado totalmente tingido de branco, era neve.
Suspirei desviando o olhar, me lembrava daquele dia como se fosse ontem, era meu aniversário e a penúltima noite de inverno, eu era aquela menininha.


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